IV Domingo do Tempo Comum

Evangelho: Lc 4, 21-30

Homilia: Do Comentário sobre o Profeta Isaías, de São Cirilo de Alexandria, bispo

(Lib. 5, t. 5: PG 70, 1351.1355-1358)

 

     Cristo, querendo restaurar o mundo e trazer de volta para Deus Pai todos os habitantes da terra, transformar em melhores todas as coisas e renovar a face da terra, assumiu a condição de escravo. Ele, o Senhor do universo, anunciou a Boa Nova aos pobres, afirmando ter sido esse o motivo pelo qual fora enviado.

     Por pobres podemos entender aqueles que padecem necessidade de toda sorte de bens; mas, outrossim, como diz a Escritura, aqueles que não têm esperança e vivem no mundo sem Deus.

     Provenientes do paganismo, a fé em Cristo os enriqueceu; ganharam um tesouro divino que veio do céu, ou seja, a pregação do Evangelho da salvação, pela qual tornaram-se participantes do reino dos céus e concidadãos dos santos, herdeiros daqueles bens que nem o pensamento nem a palavra podem exprimir: O que Deus preparou para os que o amam é algo que os olhos jamais viram, nem os ouvidos ouviram, nem coração algum jamais pressentiu (ICor 2, 9).

     Ou talvez se possa aqui entender que aos pobres em espírito é dado por Cristo um abundante ministério de carismas. Chama de coração abatido, e de ânimo fraco e partido, os que são incapazes de resistir aos assaltos das tentações e, são a elas de tal modo propensos, que até parecem seus escravos. A estes promete cura e remédio, bem como dá a vista aos cegos.

     Com efeito, os que adoram uma criatura, e dizem a um pedaço de madeira: "És o meu pai"; e a uma pedra "Foste tu que me geraste" (Jr 2, 27), na verdade não reconheceram a Deus. São cegos no coração e desprovidos da luz divina para compreender. A estes o Pai infunde a luz do verdadeiro conhecimento de Deus. Chamados por meio da fé, conheceram-no e, mais ainda, foram por ele conhecidos. De filhos da noite e das trevas que eram, tornaram-se filhos da luz. Raiou o dia e nasceu para eles o Sol da justiça; despontou também para eles a brilhante estrela da manhã.

     Nada nos impede de aplicar igualmente tudo isso aos irmãos oriundos do judaísmo. Também eles eram pobres, de coração abatido, vivendo como escravos e nas trevas. Mas, veio Cristo e, antes dos outros, anunciou a Israel a Boa Nova e a fulgurante manifestação de seu poder; proclamou um ano de graça do Senhor (Is 61, 2) e o dia da salvação (Is 49, 8). O ano de graça foi aquele no qual Cristo foi crucificado por nós. Agora, pois, tornamo-nos agradáveis a Deus Pai e, por meio de Cristo, produzimos fruto. Foi o que ele mesmo nos ensinou: EM verdade, em verdade, vos digo: se o grão de trigo que cai na terra não morre, fica só. Mas, se morre, produz muito fruto (Jo 12, 24).

     Aos que choravam em Sião foi oferecida em Cristo a consolação, a glória em vez das cinzas (cf. Is 61, 3). Com efeito, pararam de chorar e de se lamentar, e começaram com alegria a pregar e anunciar o Evangelho.

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  • Ano C